Em memória do Bijagó, do Caracol e do Misha, para o Dinky e para a Bianca, tal como para todos os cães. Todos, todos, todos.
Um cão não aspira a outra coisa
que não ser um cão. Um cão nunca chega a definir um objectivo de vida além de
viver e sobreviver segundo a sua natureza, procurando, deste modo, alguém com quem
partilhar essa luta. Ainda assim, é demasiado independente dos da sua espécie
para que se torne facilmente seu aliado. A sua ascendência lupina incentiva-o a
procurar um alfa.
Por isso, quando encontra um alfa
em forma humana, um líder, é a ele que passa a obedecer. E, se essa humanidade
do seu novo humano existir realmente, o contrato é recíproco. É deste modo que
nasce uma parceria que, se tudo correr bem, poderá ser vitalícia, prometendo o
cão e o humano lealdade um ao outro.
Num ambiente caracteristicamente
doméstico, ambos cumprem a sua parte do acordo. Em poucas palavras, auxiliam-se
mutuamente. O humano dá guarida ao cão, comida e todos os cuidados que,
sozinho, o último não poderia providenciar. O cão, por seu turno, protege o
território que partilham, olhando também, por afinidade, por todos os que se
encontrarem nesse espaço, sejam humanos ou animais. Surge o conceito de núcleo
familiar, a matilha mista por que ansiava.
Dentro dessa matilha, o cão
procura satisfazer (e, por vezes, exibir-se) perante o seu dono. Portanto, não
se importa de acarretar com todas as tarefas que lhe forem atribuídas e ainda, sem
que sejam designadas, as restantes que for capaz de realizar. Se houver
crianças humanas por perto, zela pelo seu bem-estar, dá-lhes atenção, junta-se
às suas brincadeiras, cria outras, é paciente e, propositadamente ou não,
acarinha-as. Se vir estranhos aproximarem-se de elementos da sua matilha ou do
seu território ou se os seus sentidos apurados detectarem algo pouco usual,
ladra a plenos pulmões. Se alguém adoece, mantém-se por perto. Se alguém está
triste, consola. Se alguém está feliz, multiplica a felicidade. A natureza do
cão é ser altruísta, pensando e agindo pelo e para o bem do grupo.
Porém, como todo o ser à face da
terra, dos mais irracionais aos mais racionais, o cão não é perfeito.
Apresenta-se frequentemente confuso quanto ao sítio onde fazer chichi ou quanto
aos objectos em que pode fincar os dentes; o seu pelo nunca pára de cair em
novelos; a sujidade, completamente indiferente no seu habitat natural, senão
rica em agradáveis odores para o nariz canino, não é assim tão bem cheirada no
habitat humano, onde coabita presentemente; jamais é capaz de decorar os
lugares para onde não pode subir nem os alimentos que não lhe estão destinados…
É guloso, teimoso, cabeça-dura, chantagista, inquieto, barulhento, pedincha pouco ciente
do conceito de higiene…
Responsável, atento, leal,
sentimental, sensível, amoroso, um compincha para todas as horas, minutos,
segundos e milésimos de segundo, sensato, saudavelmente louco, desafiador, esponja
absorvente das emoções que o rodeiam, desde o início do seu contrato e, se lhe
derem oportunidade, até ao fim - físico ou metafísico.
Um cão nasce para servir a sua
matilha e o seu alfa, pelo que o papel do seu alfa e da sua matilha deve ser
garantirem-lhe o fruto do trabalho conjunto da pequena comunidade: conforto,
comida, amizade, um lar. Não se trata de um contrato verbal, pois as falhas de
comunicação são constantes entre indivíduos de espécies diferentes, trata-se sim de um contrato cego, surdo e mudo, independente da linguagem, do
audível e do palpável: é um contrato selado com o coração, tal como em todas as
verdadeiras amizades. Não é em vão que se diz que o cão é o melhor amigo do
homem; nós é que temos o dever e a honra de o merecer.
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| Misha, Abril de 1998 |
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| Caracol, Dezembro de 2005 |
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| Dinky, Novembro de 2009 |
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| Bijagó, Verão de 2010 |
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| Bianca, Outubro de 2012 |





Se tivesse oportunidade de se leccionar como favorito, podes ter a certeza que este post era um dos meus favoritos de sempre.
ResponderEliminarAmazing :)
Muito obrigada! Que bom, saber dessa opinião :D
EliminarQue coisa fofinha de se dizer. Merecem realmente estas palavras simpáticas pela companhia e carinho que nos dão.
ResponderEliminarVoltei à carga, caso queiras dar uma espreitadela, sentir-me-ia lisonjeada. Uma humilde seguidora: http://coucoucaroline.blogspot.pt/
É verdade! :)
EliminarVou dar, beijinhos :D