Acho que a maior vantagem que
retirei da mudança de tipo de ensino, a meio do meu percurso, foi a aquisição
de um conhecimento comparado de cada um em relação ao outro. Se não tivesse
estado num colégio, nunca conheceria as falhas e os pontos fortes da escola
pública, e vice-versa. Julgo que a minha formação académica ficaria minimizada,
caso só tivesse frequentado um deles.
Tive a sorte (digo eu) de ter
iniciado os meus estudos e, afinal, a minha vida, no seio de um ambiente escolar muito protector, rigoroso
e diversificado. Quando menciono protector,
refiro-me às características que imagino que todos os colégios tenham: os alunos
são resguardados do exterior, acarinhados (nuns, mais do que noutros), e existe
um acompanhamento personalizado sempre que possível, feito à medida das
necessidades do aluno enquanto indivíduo, não enquanto parte de uma turma ou de
uma comunidade escolar imensa, em que as relações chegam a ser impessoais; rigoroso, não porque nos exijam notas
máximas “em cru”, sem que antes nos ensinem a trabalhar e a estudar, mas porque
nos é exigido que obtenhamos médias proporcionais às nossas facilidades e
dificuldades e aos recursos materiais, intelectuais e humanos (professores e
outros funcionários) de que dispomos, algo que, numa escola privada, é algo que
não costuma faltar; diversificado,
devido às várias actividades em que nos inserem – dança, música, teatro, rádio,
artes plásticas – e à motivação que a sua prática nos traz, mostrando que somos
capazes de ser bem-sucedidos em diversas áreas ou, quem sabe, ajudando-nos a
encontrar aquilo de que mais gostamos de fazer, acima de tudo (foi o que
aconteceu comigo, pelo menos, em relação à escrita e à comunicação em geral).
Contudo, também é do meu agrado
que não me tenham mantido no ensino privado após a conclusão do ensino básico. No
final do oitavo ano, comuniquei à minha família que não desejava continuar no
colégio e que queria ser imediatamente inscrita na escola que fica perto da
nossa casa. Felizmente, eles não acederam ao pedido e obrigaram-me a esperar.
Porque, se há algo que não consegui desenvolver lá muito bem no colégio
(conjugando a minha educação no seio familiar), foi a maturidade suficiente
para me conseguir integrar às mil maravilhas noutro contexto totalmente
distinto (porém, suponho que esta questão dependa de pessoa para pessoa). Tinha catorze anos, mas poderia ter dez em mentalidade. Ainda bem que
permaneci no colégio até ao nono ano, por muito “claustrofóbica” que já me
sentisse, por muita que fosse a minha curiosidade sobre o “mundo real”!
O meu décimo ano foi um ano de
choque entre o meu eu de antes e o
meu eu de agora. Mesmo agora, no
décimo segundo, continuo a confrontar-me com situações novas todos os dias.
Mas, após a mudança de tipo de ensino, aprendi de imediato imensas coisas, qual
bebé recém-nascido. Era demasiado ingénua, não conhecia muitas pessoas da minha
idade diferentes daquelas com quem contactara durante nove anos, que tinham
sido quase sempre as mesmas (algumas conheciam-se desde que usavam fraldas; eu
conhecia-as praticamente todas, excepto uma ou outra que ia entrando
posteriormente, desde o tempo das Barbies e das Bratz), por sua vez, não sabia
interpretá-las correctamente e, emocionalmente, o meu décimo foi um desastre (imaginem
um coelhinho sonso a cair de amores por um lobo, ai tão fofinho, mas tão
matreiro, e já se sabe quem acaba nos dentes de quem). Subestimei o mundo real,
como lhe costumo chamar.
Quanto aos professores, não houve
surpresas. Os bons existem tanto no público como no privado, apenas com a
diferença de que, no público, o seu tempo tem de ser dividido entre todas as
milhentas turmas a quem dão aulas e, enfim, muitas das vezes, um aluno é
somente mais um número. Ainda assim, tive a sorte de, em menos de três anos, já
me terem calhado uns quantos cujo empenho admiro e com quem simpatizo bastante,
que batalham todos os dias para recompensar os alunos que merecem e motivar,
até, aqueles que simplesmente se estão pouco “importando”. Por outro lado, dos
maus professores, já reza a História desde a Era dos dinossauros – faltam sem
justificação ou aviso antecipado, não sabem fazer nem corrigir testes, não
sabem dar aulas, não estão minimamente preocupados, querem é subir de escalão profissional
ao desbarato… Feitas as contas, não se pode ter tudo na vida, não é verdade?
No colégio, consegui arranjar as
ferramentas intelectuais e artísticas, a par dos bons valores morais, como a
justiça, a compreensão e a amizade; na escola pública, conheci verdadeiramente a
dimensão das relações humanas em todos as suas vertentes, ora positivas, ora
negativas, entrei em contacto com o que é a “realidade” da maioria das pessoas
e, sumariamente, da sociedade actual; consequentemente, aprendi a ter garra e a
lutar pelos meus objectivos em qualquer contexto, não esperando ser amparada na
“queda” (porque a vida não é justa, por muito que tentemos; por vezes, temos de
lhe dar um pontapé para ela entender o que queremos que faça por nós!). Os dois acabaram por se complementar perfeitamente!
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Se, posteriormente, me lembrar de mais alguma coisa que ache relevante dizer, fá-lo-ei. Espero ter respondido bem a sugestão!
