A minha família não me deixa trabalhar, uma vez que o meu único trabalho deve ser estudar, e querem que eu o faça sendo a minha prioridade.
Talvez nas férias, diz a
minha avó. Não, não, diz o meu pai, deves é aproveitar estes meses, esta altura,
enquanto podes, ir para a universidade sem outras preocupações, porque nós não
sabemos o dia de amanhã, nem como estará o país daqui a uns meses...
Está bem, eu entendo. E é sobre isto que vos quero escrever.
Enquanto estudantes sem nenhuma especialização (falo, pelo menos, em
nome dos que enveredaram pelo ensino regular não profissionalizante, tal como
eu), porventura ainda no ensino secundário ou nos primeiros anos de faculdade,
os empregos que poderemos, possivelmente, arranjar, no campo dos part-times, é
andar a virar hambúrgueres ou frangos, sermos vendedores por telefone, darmos
explicações, caso tenhamos, sequer, habilitações e credibilidade para tal ou
(tentar) vender cosméticos por catálogo (mais no caso das raparigas). Principalmente
nos dois primeiros, somos mais do que explorados. Recebemos uma miséria, já
temos de descontar para os impostos, graças aos novos procedimentos e controlos
fiscais por parte do Estado e, no fim, sobra-nos quanto dinheiro…? 100 euros
por mês? 150? E com alguma sorte! Por uma média de 88 horas de trabalho mensal
(contando que se trabalham 4 horas todos os 22 dias úteis), isso é uma
ninharia, fora o transporte, a alimentação e outros descontos que possamos ter
no ordenado.
Eu quero muito trabalhar, uma vez que mal tenho dinheiro para pagar a
faculdade que começa já em Setembro, mas não sei se valerá a pena. Além de, por
agora, não me deixarem arranjar nada, apesar de já ter sido chamada para duas
entrevistas, talvez tenham razão quando argumentam que desperdiçarei tempo
quase desnecessariamente, tempo esse que posso utilizar a estudar, a escrever
(porventura, concorrendo a alguns concursos literários em que poderei arrecadar
dinheiro livre de impostos, se ganhar algum prémio), a namorar e a estar com os
amigos... Enfim, a divertir-me enquanto estou na idade de o fazer com maior
liberdade. Há todo um conjunto de prós e contras que tem de ser pesado.
Arranjar um emprego poderia trazer-me a experiência profissional que
ainda mal tenho, poderia dar um jeito ao meu CV, dar-me uma primeira
perspectiva do que é realmente o mercado do trabalho e permitir-me amealhar
algum dinheiro para as propinas da faculdade. Por outro lado, estaria a perder
horas de estudo e de descanso, teria que deixar as aulas da Alliance Française
em suspenso, nem que fosse temporariamente, não conseguiria ter nenhuma
disponibilidade para escrever nem ler… Percebem o meu dilema?
Portanto, deste modo, decidi-me apenas a inscrever para monitora das
actividades de Verão da freguesia onde estudo. Em princípio, julgo que decorram
somente durante o mês de Julho e farei algo de que gosto: ou tomar conta de
crianças, ou da biblioteca de praia/jardim. No ano passado, fiquei como “suplente”
para as bibliotecas, mas ninguém desistiu da vaga que lhe fora atribuída e
acabei por não ser chamada. Este ano, tenho mais hipóteses: já terei o 12º ano
terminado, mais um diploma de nível C1 a Inglês (fora o B2 de Francês, para o
qual ainda tentarei a sorte no próximo dia 10) e serei maior de idade. Sei que
não se ganha muito mais nestes empregos de Verão a tempo inteiro do que em
qualquer outro a tempo parcial, mas não custa tentar por apenas quatro semanas.