O meu gosto pela leitura e pela literatura não se intensificou
sozinho, ao longo dos anos. Felizmente, sempre encontrei estímulos exteriores
que me permitiram vir a conhecer melhor o mundo dos livros e dos escritores,
sendo um desses exemplos os amigos, em particular uma amiga.
Conheci a Cassandra no meu quinto ano, sexto dela. Íamos as duas no
autocarro do colégio todas as manhãs e, já nem me lembro como, começámos a
falar sobre Harry Potter, uma saga que eu ainda estava a descobrir, mas em que
ela já estava doutorada há muito tempo, se a memória não me falha. Em breve, já
eu havia lido HP suficiente para me equiparar a ela em tais conversas. Mas
a Cassandra não lia só HP, ela lia de tudo um pouco, o que acabou por me
incentivar a fazê-lo também. Infelizmente, eu ainda fiquei presa durante mais
uns anos nos romances de faca e alguidar e no Clube das Amigas, dado ainda ser
literariamente imatura. Claro que a Cassandra é, no que toca aos livros, muito
mais culta do que eu, aposto. Ou seja, seguindo mais directamente para o cerne
da questão, sendo a Cassandra a mais velha, tanto em relação a mim quanto à
irmã (olá, Érica, eu sei que estás a ler isto!), tornou-se inevitavelmente –
falo por mim – o nosso ideal de pessoa e de indivíduo culturalmente activo.
Todo este parlapier (palavra
aparentemente francesa, mas que não existe em nenhuma língua) serviu para
introduzir o assunto-chave da presente publicação: a Cassandra voltou a fazer
das suas. Desta vez, convenceu-me, há um par de meses, a experimentar os livros
do escritor japonês Haruki Murakami. No imediato, não fiquei lá muito
convencida. Enquadro-me naquele tipo de leitor céptico e que duvida sempre se
os seus gostos pessoais se reflectirão no livro que se lhe apresenta. Lida a
sinopse, raramente fico convencida. Relatado um resumo da história, muito
menos. É preciso que me metam o livro nas mãos e me obriguem a levá-lo para
casa com toda e qualquer garantia de que não me desiludirá, que foi o que a
Cassandra fez, para meu próprio bem - agora já o sei.
Esse primeiro livro – para variar, emprestado da prateleira da minha
boa amiga – foi o Sputnik Sweetheart (Sputnik, meu amor, em português), a edição
traduzida para inglês. Como é um livrinho pequenino, não me importei de lhe dar
uma hipótese. Não morreria por ler cerca de duzentas páginas, mesmo que, no
final, o considerasse um desperdício de tempo. Resultado: adorei o livro,
devorei-o em menos de três dias e, quando o devolvi, ainda pedi mais.
Há poucos minutos, terminei o meu segundo Murakami – o seu livro de
memórias Auto-retrato do escritor
enquanto corredor de fundo, requisitado na biblioteca. O próximo na lista é
o Crónica do pássaro de corda, outra
vez emprestado pela Cassandra. Antes desse, ainda vou ler uma colectânea de
crónicas do Miguel Esteves Cardoso, A
Causa das Coisas, mas mal posso esperar por conhecer mais trabalhos do
Murakami.
Até agora, concluo que a sua escrita – fluída e acessível a qualquer
tipo de leitor - permite-nos observar os cenários descritos de um modo pouco
ortodoxo, apontando aspectos em que não repararíamos se nos deparássemos com
eles na vida real, permite-nos estabelecer laços de proximidade com as
personagens e com a própria voz do narrador/escritor e, como consequência, julgo
eu, embrenhar-nos em mundos meio reais, meio fantásticos, como se fôssemos nós
a escrever sobre eles ou a vivê-los pessoalmente.
Por norma, quando gosto de um determinado escritor, tenho tendência a
ler vários dos seus livros em série. Gosto de conhecer o seu estilo a fundo e
de lhe atribuir uma personalidade fictícia, com que me possa identificar (não
que, neste caso, haja muito em comum entre uma adolescente de dezassete anos e
um escritor de sessenta e tal, não contando com as raízes asiáticas de ambos e
o amor pela escrita). É essa relação que pretendo vir a estabelecer com o meu
novo amigo Murakami. Seja bem-vindo à minha vida!