No dia 3 de Abril de 2001 almocei esparguete. Não me perguntem o que comi mais, porque não me lembro de mais nada, apenas desse pormenor. Eu estava nervosa, de um modo infantil, mas estava, sentia aqueles tão aclichézados apertos no estômago e dividia-me entre querer ficar e querer ir - querer ficar em casa ou ir para a escola.
Eu nunca tinha ido para a escola. A maioria das crianças
passa pela creche ou pelo jardim-de-infância, mas eu só o tinha experimentado
uma vez, aos três anos, e não correra nada bem (miúdos mais velhos barulhentos,
babados, sujos, irritantes, aqueles demónios que me encurralavam dentro de uma
lagarta de plástico que lá havia, educadoras desatentas, bichos que me morderam
toda), pelo que, aos cinco, não sabia bem o que esperar. Felizmente, foi
sofrimento de pouca dura.
Mas, como ia eu contando, foi nesse dia, 3 de Abril de 2001,
que eu comecei a conhecer o mundo além da casa da minha avó. Foi um dia duro,
emocionalmente, e recordo-me de bastantes detalhes, como se os tivesse vivido
ontem. Fui obrigada a perceber os outros miúdos, a entender as suas
brincadeiras e conversas e, como havia de acontecer regularmente durante os
anos que se seguiram, a ser rejeitada dessas mesmas brincadeiras e conversas que
eu não percebia totalmente.
Entretanto, já passaram doze anos. Doze anos! Uma década
vírgula dois. E, desse dia 3 de Abril, ficou-me algo ainda mais simbólico do
que o primeiro dia no colégio que frequentei durante mais de metade da minha
vida: conheci a Inês.
Bem… Conheci a Inês e conheci o Miguel, os meus mais fiéis
compinchas de infância. Brincávamos com as Barbies, eles concertavam as minhas
quando eu as descabeçava ou desmembrava (acontecia mais vezes do que o
desejável), brincávamos aos Pokemons, às mães e aos pais, eu gritava com eles
porque não os via seguir a minha story
line da brincadeira (já nessa altura eu era um bocadinho mandona e tinha a
mania de fazer histórias só minhas), eram a Inês e o Miguel que eu nomeava primeiro se me calhava fazer a chamada para o almoço e para a casa-de-banho…
Só que crescemos os três, o Miguel mudou de escola, e só
fiquei eu e a Inês. E, acreditemos ou não, já lá vão doze anos desde que me
convidou para brincar com ela (e o Miguel, claro), já que os outros meninos não
gostavam de mim - nem do pobre Miguel, porque éramos ambos muito gorduchinhos e
aluados nas nossas brincadeiras. A Inês também era gorducha, tinha uns olhos
muito grandes e claros e, acima de tudo, aceitou-me como eu era, assim meia
totó. Ainda que outros gostassem dela, a Inês gostava mais de nós.
Assim, quero falar-vos da Inês, de todas a melhor amiga que
alguém poderia pedir. Não se importa que eu fale sobre mim, que me queixe, que
me lamente, que lhe filosofe sobre a minha vidinha, que festeje, atire os
foguetes e apanhe as canas, que lhe mande uma mensagem – ou até mil, se for
necessário - porque ela há-de me
responder, mais cedo ou mais tarde, nada disto interessando quando, onde ou com
que estado de espírito nos encontramos.
Ela é a parte altruísta da nossa amizade, enquanto eu sou a
mais egocêntrica. Ela gosta mais de ouvir, eu gosto mais de divagar. Ela é mais
ou menos tímida, eu sou mais ou menos amalucada. Ela tem paciência, eu sou
impaciente.
A Inês e eu nunca discutimos. Só estivemos mal uma vez, e
com toda a razão (mas isso é história, não valendo a pena remexer na caquinha).
Durante o período escolar, vemo-nos, com alguma sorte, uma vez a cada dois
meses (chegando a ficar juntas quase uma semana seguida nas férias), não falamos todos
os santos dias, mas sabemos que estamos à distância de um telefonema, de uma
mensagem ou de uma estação de comboio. Frequentarmos escolas diferentes desde o
7º ano e relacionarmo-nos com pessoas diferentes só nos ajudou, julgo eu, a
confirmar o quão inseparáveis somos, não fisicamente, “apenas” de espírito.
Inevitavelmente, a Inês faz parte do meu quotidiano. Está
presente nas minhas acções e nas decisões que tomo (como é que a Inês
reagiria/pensaria/faria?), nos meus hobbies (se não fosse a Inês a
incentivar-me, talvez eu já tivesse largado a guitarra e teria deixado de
cantar; se a Inês não tivesse dito, certa vez, “leio teu blogue sempre que posso”, eu não o teria chegado a levar a sério) e, principalmente, na minha personalidade (se a Inês não me tivesse
incentivado a libertar-me e a mostrar, ao pé dela, quem realmente eu queria ser
para o resto do mundo, talvez eu ainda não conhecesse a sensação do que é
orgulhar-me de mim mesma e de ser aceite por outras pessoas sem desatar a voltar
para a minha conchinha, cheia de medo da rejeição).
A Inês é a irmã que os meus pais não me quiseram dar, a voz da razão quando ela me falta, os conselhos sensatos que me livraram, livram e livrarão de caminhos menos aconselháveis, a amiga que quase ninguém chega a encontrar para si (coitadinhos), a que se cala e dá um passo atrás para que eu tenha os meus momentos, o exemplo de como as unhas roídas são horríveis nos dedos de uma rapariga (pronto, isto tinha de descambar!)... a Inês é uma data de pessoas e coisas sem nome! A Inês é a Inês e só a Inês poderá ser a minha Inês enquanto ambas formos vivas.
Se, aos cinco anos, a Inês não fosse da Sala Amarela, se não
gostasse de Barbies ou não me tivesse perguntado se eu queria brincar, esta
Beatriz não seria eu; existiria somente uma outra Beatriz que, para mim e para
todos, permanecerá eternamente incógnita… felizmente!
Espero que, quem quer que nos tornemos no futuro, a nossa amizade dure e perdure, rija que só ela, bonita que só ela, tão ela que só ela.